De portas e braços abertos.

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Tempos atrás, li algo que mexeu significativamente comigo: o poema, intitulado “A Casa de Hóspedes”, do poeta Rumi. Esse poema, com o perdão do trocadilho, rumina quase todos os dias em meus pensamentos. Peço licença para transcrevê-lo, de modo que, cada um faça a sua própria leitura, para filtrar e assimilar o que mais lhe convém.

O ser humano é uma casa de hóspedes.

Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos.

Mesmo que seja uma multidão de dores que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.

Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.

Eles podem estar te limpando para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia, encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem, porque cada um foi enviado como um guardião do além.”

Se você foi capaz de abrir as portas para o que acabou de ler, possivelmente conseguirá abrir os braços para este texto. Se ao contrário, o seu ímpeto foi o de fechar a porta, talvez esta leitura possa ficar para depois, quando fizer algum sentido para você. Para os que estão de portas abertas, prossigo…

Não há como fugir: um dia qualquer, sem prévio aviso, hóspedes indesejados baterão na nossa porta. O medo, a raiva, a tristeza, a insegurança, a solidão, o cansaço, a dor e toda uma infinitude de sentimentos ruins com os quais sabemos pouco ou quase nada lidar. Natural, é óbvio que não queremos hospedar nada, nem ninguém que nos faça mal, mas a realidade é que nem sempre vamos conseguir evitar.

Existem forças que fogem ao nosso querer e entendimento. Nessas horas, de nada adianta bater a porta e empregar todos os recursos para mantê-la fechada. Sinto informar, mas o máximo que conseguiremos depois de esgotada toda nossa capacidade de resistência é a prostração, ao ver o hóspede intruso entrar cheio de energia para cumprir sua força-tarefa.

A psicologia nos ensina: “aquilo a que você resiste, persiste.” É uma questão de lógica, quanto mais força você empregar em algo, mais força esse algo terá. E não, eu não estou aqui tentando exaltar a passividade, a indiferença ou a acomodação, ao contrário, estou falando de algo que, para muito além da força, exige de nós aceitação, profundidade e sabedoria.

Aceitação é a primeira e talvez a fase mais difícil da hospedagem, mas sem ela não é possível alcançar a profundidade, o que consequentemente nos distancia da sabedoria, já que bloqueamos o estágio da aprendizagem quando não aceitamos algo.

Por mais indesejado que o hóspede seja, ao abrirmos as portas sem questioná-lo, de modo menos avassalador ele entrará. Uma vez acomodado, quanto mais gentil conseguirmos ser com nosso hóspede, com mais gentileza nossa casa será readaptada. Nesse ponto, entraremos na fase da profundidade, em que necessariamente compreenderemos mais sobre os comportamentos de nosso coabitante, e portanto, adquiriremos um pouco mais de sabedoria para com ele lidar.

Permanecer de portas abertas para os piores hóspedes não é tarefa fácil, mas desconfio que eles só aceitam ir embora depois de conseguirem o mais improvável e difícil: um abraço sincero!

Priscila Lima

2 comentários sobre “De portas e braços abertos.

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