Faz sentido para você?

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     Sentir, segundo o dicionário etimológico, significa experimentar uma sensação ou um sentimento, quer por meio dos sentidos, quer por meio da razão. Estamos na era da comunicação instantânea, da valorização da superficialidade, da troca rápida de informações e experiências…

     Sentimos que o tempo fica cada vez mais curto e os relacionamentos mais efêmeros. Não sei como é para você, mas essa nova temporada da vida causa-me estranhamento e um inevitável incômodo. Não estou sabendo lidar com essa velocidade que me deixa tantas vezes anestesiada, pois de fato não sei como é sentir o que não faz sentido para mim. Faz sentido para você?

     Neste ponto, talvez caiba contar um segredo. Desde a minha adolescência surpreendia-me os seguintes pensamentos: e se eu estivesse vivendo em outra época? Uma época anterior a esta, como seria? Será que eu iria me sentir mais encaixada ao todo? O mais curioso é que a cada ano que passa esses pensamentos continuam a me assaltar com uma constância cada vez maior. Cheguei ao ponto de questionar: será que outras pessoas pensam e consequentemente sentem isso?

     E deve ser exatamente por isso que este texto que passei a semana inteira pensando em escrever, sem obstáculos, transformou totalmente o contexto em que eu havia inserido o título: faz sentido para você? De repente, encontro-me aqui querendo saber de você, que está lendo o texto dessa semana, se essa era na qual estamos vivendo está fazendo sentido para você.

     Não sei se terei respostas, não sei inclusive se esse texto vai fazer algum sentido, mas talvez, na menor das hipóteses, ele ajude-me a encontrar uma forma de continuar sendo subversiva ao não me obrigar a digerir uma comunicação invasiva, ao não me contentar com o que está apenas na superfície, ao não me conformar com experiências que não provoquem todos os meus sentidos, inclusive o sexto e o sétimo!

     E talvez, na maior e melhor das hipóteses, nós podemos, juntos, desacelerar o que for preciso, aprofundar naquilo(e) que nos provoca boas sensações e sentimentos e assim  compreender todos os nossos sentidos. Faz sentido para você?

     Priscila Lima

 

Caminho Inverso.

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     Esses dias vivenciei uma situação, lá nas bandas de onde o vento faz a curva (Cruzeiro do Sul – Acre), que merece muito ser compartilhada neste blog:

     No início de uma típica tarde acreana do mês de setembro, com o sol elevado na sua máxima potência, fui visitar minha amada e admirada avó paterna, Cândida Pereira Lima, que daqui a pouco mais de dois meses completará seus 96 aninhos! Aos 95 anos, vovó está dando andamento ao projeto de elaboração da sua segunda cartilha sobre alfabetização. Mulher virtuosa, professora nata, alinhou-se ao seu propósito de vida e alfabetizou incontáveis crianças durante muitos e muitos anos. Vovó tem uma habilidade ímpar, inteligência apurada, memória fantástica, criatividade e o mais importante: um amor incondicional pela educação de base. Sua história de vida é realmente incrível, mas por hoje quero deter-me a essa tarde especial que passei ao lado dela.

     Minha avó contou que estava com dificuldades para reordenar o material que havia sido digitado (suas primorosas cartilhas estão originalmente elaboradas com sua caligrafia impecável). De pronto, perguntei se ela queria minha ajuda e juntas sentamos na mesinha da sua sala de estar, mas antes, para amenizar todo o calor que eu sentia, ela ofereceu um de seus confortáveis vestidinhos para eu usar. E assim, juntas e vestidas de vovó, passamos uma tarde inteira reordenando. Ela contou-me os detalhes do projeto, cantou todas as musiquinhas que fazem parte dele, bem como explicou todo o faz de conta inserido na estória da família do seu amado AlfaBeto. Horas mais tarde, eu também ofereci meus óculos para que ela pudesse inserir acertos com sua caligrafia desenhada. Se eu pudesse dar um nome a essa tarde eu daria o nome de tempo de qualidade!

     A esta altura você já deve estar questionando qual é a efetiva ligação entre o título do post e essa tarde partilhada com minha querida avó, explico: passei dias refletindo sobre esse momento que passei ao lado dela e cheguei à conclusão de que vovó está tendo a dádiva de percorrer o caminho inverso.

     Percorrer o caminho inverso é o mesmo que ficar cada vez mais jovem enquanto se amadurece. Não moro na mesma cidade que minha avó e por isso não nos encontramos com a frequência que eu gostaria, porém a cada vez que nos encontramos enxergo uma mulher mais jovem e cheia de sonhos, outras vezes visualizo a pureza de uma criança estampada no seu jeito cada vez mais espontâneo e divertido. Não sei precisar em que ponto minha avó passou a percorrer esse caminho, mas sei que quero percorrê-lo.

     De repente, depois de muito refletir sobre a possibilidade que todos temos de percorrer um caminho inverso, lembrei do filme O Curioso Caso de Benjamin Button. Assisti esse filme há quase uma década, não recordava de muitas coisas, mas minha amada intuição logo convenceu-me de que eu deveria assistir novamente. Assisti ao filme pela segunda vez e pasmem, apaixonei perdidamente, quantas lições foram acrescentadas! O filme retrata a história de Benjamin Button que nasce velho e rejuvenesce com o passar do tempo. Muito oportuno, não? Transportando a história do filme para a nossa realidade, ressalto: todos nós podemos experimentar o percurso inverso! Para tanto, transcrevo um dentre os vários trechos emocionantes do filme.

     “Se é que minha opinião importa, nunca é tarde demais ou no meu caso cedo demais para ser quem você quer ser. Não há limite de tempo, comece quando quiser. Mude ou continue sendo a mesma pessoa, não há regras para isso. Pode tirar o máximo proveito ou o mínimo, espero que tire o máximo. Espero que veja coisas surpreendentes. Espero que sinta coisas que nunca sentiu antes. Espero que conheça pessoas com um ponto de vista diferente. Espero que tenha uma vida da qual se orgulhe. E se não se orgulhar dela…espero que encontre forças para começar tudo de novo.”

     Para mim, viver é como um eterno recomeço. Todos os dias ao despertarmos temos uma nova oportunidade para fazermos diferente ou não, para sermos melhores ou não, para aprendermos as lições da vida ou não, para percorremos o caminho direto ou o caminho inverso, é você quem escolhe se recomeça ou não.

     Finalizo o post desta semana com o trecho final do filme:

     “Algumas pessoas nasceram para ficar sentadas junto ao rio;

     Algumas são atingidas por raios;

     Algumas têm ouvido para música;

     Algumas são artistas;

     Algumas nadam;

     Algumas conhecem botões;

     Algumas conhecem Shakespeare;

     Algumas são mães;

     E algumas pessoas dançam.”

     Minha avó nasceu para ensinar e por isso está percorrendo o caminho inverso com tanta maestria! E você? Vamos percorrê-lo?

Priscila Lima