Quem te conhece que te compre.

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Poucas respostas parecem tão conformadoras quanto um velho e bom ditado popular, fato! Entretanto, peço licença ao meu, ao seu, ao nosso conformismo para darmos vazão ao senso incomum. Afinal de contas, o blog completou seu primeiro ano de existência mês passado, e nada melhor do que comemorarmos editando e ditando novos preceitos.

Quem te conhece que te compre, proponho!

E nada parece-me mais justo do que começarmos por nós mesmos, pois não há lição mais edificante que a nossa própria experiência. Já dizia Sócrates: “conhece-te a ti mesmo.” Exercício que, embora pareça fácil, requer altas doses de disposição e sinceridade. Compreender a nossa verdadeira essência é trabalho de uma vida inteira, desvendar os mistérios da nossa inconsciência é trilhar o caminho intuitivo do labirinto que todos percorremos ao longo da nossa jornada.

Portanto, vamos conhecer para só então comprar, valorizando as nossas próprias qualidades, investindo no que temos de bom, apostando no que nos desafia. Porém, não nos esqueçamos de subtrair os desvios, pagar o alto preço dos erros e dividir as conquistas. A linguagem dos números é universal, as contas que fazemos nas equações de autoconhecimento servem de igual modo para as equações que fazemos dos outros.

Proponho sairmos da superficialidade, praticarmos um “consumo” mais consciente e sobretudo não nos conformarmos com as ideias prontas.

Priscila Lima

“Os opostos se distraem. Os dispostos se atraem”.

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As leis da física já comprovaram: cargas iguais se repelem e cargas opostas se atraem. E as nossas relações sociais, o que comprovam? Nós, seres complexos e singulares, temos diariamente a fácil e a difícil tarefa de interagir uns com os outros, na medida das nossas desigualdades.

A interação é fácil porque somos gregários e estar em contato diário com os outros é da nossa natureza. É difícil porque esperamos ser compreendidos dentro das nossas próprias perspectivas que, no mínimo, são diferentes das dos outros, quando não contraditórias.

E assim vivemos a dualidade da atração. Ora nos aproximando, ora nos distanciando. Há diversos tipos de relações, das meramente habituais às mais profundas. E já que estamos falando de atração, adentremos no campo da profundidade.

São nas relações mais profundas que passamos do estágio da distração para nos efetivarmos na disposição. Para além do amor, da bondade, do carinho, da gratidão e de todos os bons sentimentos que nutrimos nas nossas relações mais profundas, precisamos estar dispostos.

Dispostos a amar nas horas difíceis, nos momentos de dor e “nos desalinhos tristes das  […] emoções confusas”. Nossas relações sociais mais profundas não apenas comprovam, exigem disposição!

Priscila Lima

De portas e braços abertos.

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Tempos atrás, li algo que mexeu significativamente comigo: o poema, intitulado “A Casa de Hóspedes”, do poeta Rumi. Esse poema, com o perdão do trocadilho, rumina quase todos os dias em meus pensamentos. Peço licença para transcrevê-lo, de modo que, cada um faça a sua própria leitura, para filtrar e assimilar o que mais lhe convém.

O ser humano é uma casa de hóspedes.

Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos.

Mesmo que seja uma multidão de dores que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.

Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.

Eles podem estar te limpando para um novo prazer.

O pensamento escuro, a vergonha, a malícia, encontre-os à porta rindo.

Agradeça a quem vem, porque cada um foi enviado como um guardião do além.”

Se você foi capaz de abrir as portas para o que acabou de ler, possivelmente conseguirá abrir os braços para este texto. Se ao contrário, o seu ímpeto foi o de fechar a porta, talvez esta leitura possa ficar para depois, quando fizer algum sentido para você. Para os que estão de portas abertas, prossigo…

Não há como fugir: um dia qualquer, sem prévio aviso, hóspedes indesejados baterão na nossa porta. O medo, a raiva, a tristeza, a insegurança, a solidão, o cansaço, a dor e toda uma infinitude de sentimentos ruins com os quais sabemos pouco ou quase nada lidar. Natural, é óbvio que não queremos hospedar nada, nem ninguém que nos faça mal, mas a realidade é que nem sempre vamos conseguir evitar.

Existem forças que fogem ao nosso querer e entendimento. Nessas horas, de nada adianta bater a porta e empregar todos os recursos para mantê-la fechada. Sinto informar, mas o máximo que conseguiremos depois de esgotada toda nossa capacidade de resistência é a prostração, ao ver o hóspede intruso entrar cheio de energia para cumprir sua força-tarefa.

A psicologia nos ensina: “aquilo a que você resiste, persiste.” É uma questão de lógica, quanto mais força você empregar em algo, mais força esse algo terá. E não, eu não estou aqui tentando exaltar a passividade, a indiferença ou a acomodação, ao contrário, estou falando de algo que, para muito além da força, exige de nós aceitação, profundidade e sabedoria.

Aceitação é a primeira e talvez a fase mais difícil da hospedagem, mas sem ela não é possível alcançar a profundidade, o que consequentemente nos distancia da sabedoria, já que bloqueamos o estágio da aprendizagem quando não aceitamos algo.

Por mais indesejado que o hóspede seja, ao abrirmos as portas sem questioná-lo, de modo menos avassalador ele entrará. Uma vez acomodado, quanto mais gentil conseguirmos ser com nosso hóspede, com mais gentileza nossa casa será readaptada. Nesse ponto, entraremos na fase da profundidade, em que necessariamente compreenderemos mais sobre os comportamentos de nosso coabitante, e portanto, adquiriremos um pouco mais de sabedoria para com ele lidar.

Permanecer de portas abertas para os piores hóspedes não é tarefa fácil, mas desconfio que eles só aceitam ir embora depois de conseguirem o mais improvável e difícil: um abraço sincero!

Priscila Lima

O benefício é de quem?

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Passei uma vida acreditando que ter muitas dúvidas era, no mínimo, uma característica ruim. Já adulta, no mundo jurídico, minha crença foi corroborada quando conheci a seguinte expressão: “concedo-lhes o benefício da dúvida.” Afinal de contas, nenhum benefício era concedido a quem tinha dúvidas e sim a outrem.

Agora, no mundo das possibilidades, inauguro uma nova vida: na dúvida, ame! Ter dúvidas, não nos torna menos assertivos. A dúvida instiga, aprofunda e por que não dizer que ela inclusive nos aperfeiçoa? Já que nos tornamos mais suscetíveis para acolhermos as incertezas da vida.

Desconfiemos sim, das certezas absolutas, opiniões estáticas e verdades imutáveis. A vida exige riqueza de detalhes, reflexão amiúde e mudança de perspectiva. Neste ponto, voltamos aos benefícios da dúvida. E que tal começarmos pelo amor?

Parece clichê, mas o que fazemos verdadeiramente com amor, que é necessariamente desinteressado, encontra infinitas formas de beneficiar, não apenas ao próximo, mas sobretudo a nós mesmos.

Quando nossas ações, reações ou mesmo meras reflexões estão revestidas da magnitude que só o amor alcança, ainda que nos encontremos no meio de um turbilhão de dúvidas, estaremos agraciados pela paz que a todo custo buscamos e que por incontáveis vezes não encontramos.

Tenha, promova e acolha suas dúvidas e na dúvida, ame! O benefício é seu, é meu, é nosso!

Ps: Na dúvida, publico.

Priscila Lima

O correr da vida.

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Vida que segue! Diriam os menos poéticos. Vida que pede, diria eu, embalada certamente por uma trilha sonora condizente com a exigência atual da vida, que pede calma, alma, paciência, diria Lenine? O que dizemos para nós mesmos e para os outros importa. Importa porque somos seres gregários que compartilham experiências comuns sob perspectivas diferentes.

A nossa vida esquenta, esfria. Aperta, afrouxa. Sossega e desinquieta. Guimarães Rosa já disse: o que ela quer da gente é coragem. A coragem necessária para desembrulharmos o presente que recebemos a cada vez que despertamos do nosso precioso descanso: um novo dia!

Há dias que são quentes, há dias que são frios. Há dias em que o coração aperta, há dias em que o coração ganha um novo espaço. Há dias em que a gente sossega, há dias em que tudo inquieta. O fato é que, independente do que iremos sentir, um novo dia nunca deixará de ser um presente: o presente!

E um novo dia é sempre uma oportunidade de alcançarmos algo que não conseguimos ontem. Nesse ponto, vale ressaltar, que não se trata de alcançarmos algo grandioso a cada novo dia. Estamos a falar das miudezas da vida, aquelas que de tão miúdas, são tantas vezes esquecidas por nós, que perdemos a capacidade de reconhecer que sem elas, o grandioso não existiria.

A vida corre, segue, pede e às vezes até exige que nós tenhamos coragem suficiente para estarmos presentes no presente. Esteja!

Priscila Lima

Você quer ser ou ter quando crescer?

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Já ouviram pergunta mais curiosa que esta: o que você quer ser quando crescer? Podemos classificá-la como uma verdadeira pergunta indutiva, haja vista que de maneira geral induz a simplória resposta de qual profissão mais nos identificamos. Como se a escolha de uma profissão determinasse quem gostaríamos de ser nesta vida.

Entretanto, vamos pensar fora da casinha: você quer ser ou ter quando crescer? A propósito, existe algum momento no qual paramos de crescer? São duas perguntas que para além de simples respostas requerem de nós coragem. Coragem para ser quem queremos ser. Coragem para focarmos no ser e não no ter. Coragem!

A palavra coragem de origem latina vem de coraticum, termo composto por cor, que significa coração e o sufixo aticum, utilizado para indicar uma ação referente ao radical anterior. Na essência, ter coragem é sinônimo de agir com o coração. E eu, que nunca tinha pensado tão a fundo sobre o significado de coragem acabo por me dar conta de que sou muito mais corajosa do que sequer poderia imaginar.

Agir com o coração, de fato, requer muita coragem! E de coragem, andamos todos precisados. Afinal de contas, estamos inseridos, cada vez mais, na cultura da inversão de valores, onde o ser se traduz em ter, onde a razão não faz sentido e onde as aparências transcendem as essências.

Sejamos, pois, corajosos! Dizem que nunca é tarde demais para ser quem você quer ser…sejamos!

Priscila Lima

Teto de Vidro

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Que espécie intrigante nós somos. Com tanta coisa por arrumar em nossa própria casa, encontramos tempo e disposição para apontar a desorganização alheia. Certa vez, em uma das minhas inúmeras tentativas de autocompreensão, fui convidada a olhar as coisas como mera espectadora, desprovida de emoções, justo elas que deixam-me tão à flor da pele.

Não por acaso, tendo minha vida trilha sonora, evoco Zeca Balero:

“Ando tão à flor da pele que meu desejo se confunde com a vontade de nem ser.

Ando tão à flor da pele que a minha pele tem o fogo do juízo final.

Um barco sem porto. Sem rumo. Sem vela.

Cavalo sem sela.

Um bicho solto. Um cão sem dono.
Um menino. Um bandido.
Às vezes me preservo. Noutras, suicido!”

Com música ou sem música, voltamos à casa: a minha, a sua, a nossa! De preferência, cada um no seu quadrado. Afinal de contas, temos muita coisa para arrumar dentro de nós mesmos. Desconfio que cada dia mais. E talvez aí resida a minha urgência em escrever. Quando escrevo, consigo colocar algumas coisas no lugar ou na menor das hipóteses, consigo identificar o que está fora de lugar.

Não que eu tenha a pretensão de colocar tudo no seu devido lugar, longe de nós está e continuará a perfeição. Mas olhar para dentro costuma ser mais proveitoso que olhar para fora. Dá muito trabalho, é verdade, mas ninguém falou que seria fácil, não é?

Fácil é dar palpite na organização da casa alheia, jogar umas pedrinhas para testar o teto de vidro que não seja o nosso. Porque estando só como meros espectadores é inquestionavelmente menos denso, menos duro e mais simples. Entretanto, fiquemos atentos:

“Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.”

Priscila Lima